Fazer um empréstimo para quitar outras dívidas pode parecer uma boa solução quando você está endividado, mas essa estratégia só funciona em situações específicas. Trocar dívida por dívida sem planejamento pode piorar sua situação financeira em vez de melhorar.
A lógica de usar empréstimo para quitar dívidas é simples: você pega um crédito com juros menores para pagar dívidas com juros maiores. Mas isso só faz sentido se os juros realmente forem menores, se você parar de fazer novas dívidas e se tiver um plano para não cair no mesmo buraco de novo.
Este artigo explica quando faz sentido usar empréstimo para quitar dívidas, quando é melhor evitar e como fazer isso da forma correta para não trocar seis por meia dúzia.
1. Quando faz sentido usar empréstimo para quitar dívidas
Trocar dívida por dívida só vale a pena em situações muito específicas. A regra principal é: o novo empréstimo precisa ter juros significativamente menores que as dívidas atuais.
Situação 1: Você está no rotativo do cartão de crédito
O rotativo do cartão tem juros altíssimos. Desde 3 de janeiro de 2024, existe um teto que impede juros e encargos do rotativo e parcelamento da fatura de ultrapassarem 100% do valor original da dívida. Mesmo assim, o rotativo continua sendo uma das modalidades mais caras do mercado.
Exemplo:
Dívida no rotativo: R$ 5.000 com juros altos<br>Empréstimo pessoal: R$ 5.000 com juros de 3% ao mês
Nesse caso, faz sentido pegar o empréstimo pessoal para quitar o rotativo. Você vai economizar bastante em juros.
Situação 2: Você tem várias dívidas pequenas e quer organizar
Se você tem múltiplas dívidas com credores diferentes (cartão, financeira, loja, banco), juntar tudo em um único empréstimo pode facilitar o controle. Em vez de pagar várias parcelas em datas diferentes, você paga uma só.
Situação 3: Você consegue empréstimo consignado
Se você tem acesso a crédito consignado conforme sua relação de trabalho, benefício ou convênio disponível, essa modalidade geralmente tem juros muito mais baixos que outras opções. Vale a pena usar consignado para quitar dívidas caras como cartão de crédito ou cheque especial.
Situação 4: Você tem garantia para oferecer
Empréstimos com garantia (imóvel, veículo, investimentos) têm juros menores que empréstimos sem garantia. Se você tem um bem para oferecer como garantia e está pagando juros altos em dívidas sem garantia, pode valer a pena.
Situação 5: As dívidas atuais estão impedindo você de se organizar
Se os juros das dívidas atuais são tão altos que você não consegue nem pagar o mínimo, um empréstimo com prazo maior e juros menores pode dar o fôlego necessário para se reorganizar.
2. Quando NÃO faz sentido usar empréstimo para quitar dívidas
Existem situações em que trocar dívida por dívida é uma péssima ideia e só piora as coisas.
Situação 1: Os juros do empréstimo são parecidos ou maiores
Se o empréstimo que você está pensando em fazer tem juros similares ou até maiores que suas dívidas atuais, não faz sentido. Você não vai economizar nada, só vai complicar mais sua vida.
Situação 2: Você não tem disciplina para parar de fazer novas dívidas
Se você pegar um empréstimo para quitar o cartão de crédito, mas continuar usando o cartão sem controle, em poucos meses você vai ter o empréstimo para pagar E uma nova dívida no cartão. Você precisa ter certeza de que vai parar de se endividar.
Situação 3: O prazo do empréstimo é muito longo
Empréstimos com prazos muito longos (5, 7, 10 anos) podem ter parcelas pequenas, mas no final você paga muito mais em juros. Às vezes é melhor apertar o orçamento por alguns meses e quitar a dívida mais rápido do que se comprometer por anos.
Situação 4: Você não entende as condições do empréstimo
Se você não entende direito a taxa de juros, o CET (Custo Efetivo Total), as taxas extras ou as penalidades por atraso, não faça. Empréstimos com letras miúdas e condições confusas geralmente escondem armadilhas.
Situação 5: Você está trocando dívidas pequenas por uma grande
Se suas dívidas atuais são pequenas e você conseguiria quitá-las em poucos meses com esforço, não vale a pena fazer um empréstimo grande. É melhor apertar o orçamento temporariamente do que se comprometer com uma dívida maior.
3. Como calcular se vale a pena
Antes de decidir, faça os cálculos. Compare quanto você vai pagar no total com as dívidas atuais versus quanto vai pagar no total com o empréstimo.
Passo 1: Some todas as suas dívidas atuais
Liste: valor devido, taxa de juros, prazo restante, valor total que você vai pagar até quitar.
Exemplo:
Cartão de crédito: R$ 3.000, juros altos, 12 parcelas de R$ 350 = R$ 4.200 no total<br>Cheque especial: R$ 1.500, juros altos, precisa quitar em 6 meses = R$ 2.250 no total<br>Total a pagar: R$ 6.450
Passo 2: Calcule o empréstimo que você está considerando
Valor: R$ 4.500 (para quitar os R$ 3.000 + R$ 1.500)<br>Taxa de juros: 3% ao mês<br>Prazo: 18 meses<br>Parcela: R$ 300<br>Total a pagar: R$ 5.400
Passo 3: Compare
Dívidas atuais: R$ 6.450<br>Empréstimo novo: R$ 5.400<br>Economia: R$ 1.050
Nesse caso, vale a pena porque você economiza R$ 1.050 e ainda reduz a parcela mensal (de R$ 350 + outras despesas para R$ 300).
Se o cálculo der ao contrário (o empréstimo sai mais caro), não vale a pena.
4. Tipos de empréstimo e quando usar cada um
Nem todo empréstimo é igual. Cada tipo tem características próprias e serve melhor para situações específicas.
Empréstimo consignado:
- Juros: geralmente entre os mais baixos do mercado
- Para quem: trabalhadores com acesso a consignado conforme relação de trabalho ou benefício
- Quando usar: para quitar qualquer dívida com juros mais altos
- Cuidado: a parcela é descontada direto do salário ou benefício, reduzindo sua renda disponível
Empréstimo pessoal:
- Juros: médios (variam conforme o banco e seu perfil)
- Para quem: qualquer pessoa com renda comprovada
- Quando usar: para quitar rotativo de cartão ou cheque especial
- Cuidado: analise bem o CET (Custo Efetivo Total) porque taxas extras podem encarecer
Empréstimo com garantia:
- Juros: geralmente mais baixos
- Para quem: quem tem imóvel, veículo ou investimentos para dar como garantia
- Quando usar: para quitar dívidas grandes com juros altos
- Cuidado: se você não pagar, perde o bem dado como garantia
Refinanciamento de dívidas:
- Juros: variam
- Para quem: quem tem dívidas em um banco e quer renegociar com o próprio banco
- Quando usar: quando o banco oferece condições melhores que as atuais
- Cuidado: nem sempre os juros são realmente menores; calcule antes
5. Passo a passo para fazer empréstimo e quitar dívidas corretamente
Se você decidiu que faz sentido no seu caso, siga esses passos para fazer da forma certa.
Passo 1: Liste todas as dívidas
Anote: credor, valor devido, taxa de juros, prazo. Priorize as dívidas com juros mais altos.
Passo 2: Pesquise opções de empréstimo
Compare pelo menos 3 bancos ou instituições. Use simuladores online para ver taxa de juros, CET, valor da parcela e total a pagar.
Passo 3: Calcule se vale a pena
Use a fórmula do tópico 3. Se o empréstimo sair mais barato que manter as dívidas atuais, vale a pena. Se não, não faça.
Passo 4: Pegue o empréstimo
Depois de escolher a melhor opção, contrate o empréstimo. Leia todo o contrato antes de assinar. Entenda: taxa de juros, CET, prazo, parcela, penalidades.
Passo 5: Quite as dívidas imediatamente
Assim que o dinheiro do empréstimo cair na sua conta, quite todas as dívidas que você planejou quitar. Não use esse dinheiro para outra coisa.
Passo 6: Corte os cartões e pare de fazer novas dívidas
Esse é o passo mais importante. Se você quitou o cartão de crédito, corte fisicamente ou cancele. Não adianta quitar dívida se você vai fazer outra logo em seguida.
Passo 7: Pague o empréstimo em dia
Configure débito automático para não esquecer. Priorize essa parcela no seu orçamento. Se você atrasar, os juros voltam a crescer e você perde o benefício.
6. Erros comuns ao usar empréstimo para quitar dívidas
Muita gente comete os mesmos erros e acaba piorando a situação.
Erro 1: Não calcular o total a pagar
Só olhar para o valor da parcela não basta. Você precisa saber quanto vai pagar no total. Às vezes a parcela é pequena mas o prazo é longo e você paga muito mais em juros.
Erro 2: Continuar fazendo novas dívidas
Quitar o cartão de crédito e voltar a usar sem controle. Em poucos meses você tem o empréstimo para pagar e uma nova dívida no cartão.
Erro 3: Pegar empréstimo maior que o necessário
Você precisa de R$ 5.000 para quitar dívidas, mas pega R$ 8.000 porque “já que está pegando…”. O dinheiro extra é gasto em coisas supérfluas e você fica com uma dívida maior.
Erro 4: Não ler o contrato
Assinar sem entender as condições. Depois descobre taxas escondidas, seguros obrigatórios ou penalidades que encarecem tudo.
Erro 5: Escolher o primeiro empréstimo que aparece
Não pesquisar. Pegar o empréstimo do primeiro banco que oferece sem comparar com outras opções. Às vezes uma diferença de 0,5% ao mês significa centenas ou milhares de reais a mais no final.
7. Alternativas ao empréstimo para quitar dívidas
Antes de fazer um empréstimo, considere essas alternativas.
Alternativa 1: Negociar diretamente com os credores
Ligue para os bancos e financeiras e peça desconto ou condições melhores. Muitos aceitam dar desconto de 30%, 50% ou mais se você pagar à vista ou em poucas parcelas.
Alternativa 2: Usar recursos próprios disponíveis
Se você tem recursos próprios disponíveis legalmente, avalie se faz sentido usá-los para quitar dívidas caras em vez de fazer novo empréstimo.
Alternativa 3: Vender bens não essenciais
Carro que você não usa, moto parada, eletrônicos, roupas. Venda e use o dinheiro para quitar dívidas.
Alternativa 4: Fazer renda extra temporária
Trabalhos de fim de semana, freelance, venda de produtos. Use toda a renda extra para quitar dívidas em poucos meses sem precisar de empréstimo.
Alternativa 5: Programas de renegociação
Use plataformas como Serasa Limpa Nome, Acordo Certo ou programas oficiais de renegociação, quando estiverem vigentes, que podem oferecer condições especiais.
Conclusão
Usar empréstimo para quitar dívidas pode ser uma boa estratégia, mas só em situações específicas: quando os juros do empréstimo são significativamente menores que as dívidas atuais, quando você tem disciplina para não fazer novas dívidas e quando o cálculo mostra que você vai economizar no final.
Se você não tem certeza se vale a pena, faça os cálculos. Compare o total que você vai pagar com as dívidas atuais versus o total que vai pagar com o empréstimo. Se a economia for real e você tiver disciplina para não se endividar de novo, pode ser uma boa saída.
Mas lembre-se: trocar dívida por dívida não resolve o problema de raiz. Você precisa também corrigir os hábitos financeiros que te levaram ao endividamento. Caso contrário, em poucos meses você estará na mesma situação ou pior.
Fonte oficial: Banco Central do Brasil — https://www.bcb.gov.br/cidadaniafinanceira/tiposemprestimo/
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